quarta-feira, 30 de junho de 2021

COLUNA DO LUIS BORGES:

 

Um dia sem água
 por Luis Borges  28 de junho de 2021  Pensata


Sabe aqueles momentos do finalzinho das tardes de domingo em que algumas pessoas sentem que já não dá para fazer quase mais nada enquanto a segunda-feira se aproxima? Foi nesse momento do penúltimo domingo que o professor Leôncio alertou o seu vizinho, o comerciante Samuel, que havia um vazamento de água importante na calçada, mais precisamente na divisa entre suas casas. Elas ficam no bairro de Santa Tereza, zona Leste de Belo Horizonte, que tem quase que a mesma idade da cidade.

Ao observar detidamente o fenômeno da água estava escoando livremente rua abaixo, caracterizando um desperdício pleno, o professor Leôncio manifestou preocupação com a falta que ela faria nas casas enquanto Samuel tentava encontrar possíveis causas do problema percebido. Indagava se poderia ser a fragilização da rede de distribuição da água instalada há décadas e sem manutenção preventiva ou preditiva visível nos últimos tempos.

O jeito foi ligar para o atendimento ao cliente da companhia de saneamento, na esperança de não ser tratado como mero usuário. A atendente cumpriu o padrão de atendimento e conseguiu compreender que o caso necessitava de uma atenção imediata, do tipo “ver e agir”.

Por volta das 20h30 chegou ao local um técnico de uma empreiteira da empresa concessionária do serviço, que diagnosticou um vazamento na rede distribuidora de água instalada na calçada. Disse que o reparo seria feito a partir da manhã da segunda-feira e que tentaria fechar os registros da rede distribuidora nas esquinas de duas ruas próximas. Por volta de uma hora da madrugada o professor Leôncio percebeu que a água parou de escoar quase que totalmente. Soube-se depois que houve dificuldade para fechar totalmente os registros da rede, que estavam um pouco emperrados. Isso piorou as condições para o reparo da rede ao longo do dia.

Lá pelas 17h de segunda-feira a tubulação danificada estava substituída, mas ficou um buraco sinalizado que deveria ser totalmente fechado com a respectiva recomposição da calçada até 48 horas após.

Tudo ficou pronto na quarta-feira à tardinha, ou seja, 3 dias após o vazamento ter sido descoberto. Há quanto tempo o vazamento teria se iniciado sem ter sido percebido e qual o nível de qualidade do serviço feito pela empreiteira perguntou o professor Leôncio ao vizinho Samuel? “Sei lá, vamos ver quanto tempo vai durar”, respondeu ele.

Enquanto todos os moradores da rua passaram 24 horas sem água chegando em suas casas, os dois vizinhos conversaram sobre o período sem chuvas e o impacto que isso causa no consumo de água nas diversas modalidades de seu uso. Samuel levantou a hipótese de ficar três dias seguidos sem água em casa e como sua família se viraria no período. Nada de lavar roupas, aguar as plantas, reduzir drasticamente a duração dos banhos diários e sempre lembrando que a caixa d’água só tem capacidade para armazenar 1000 litros. Arrematou a conversa lembrando-se da crise hídrica e do muito que precisa ser feito para que a água não caminhe para a sua própria finitude. Mas como fazer para que isso não aconteça?


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