domingo, 21 de março de 2021

COLUNA DO PROFESSOR LUCIANO MARCOS CURI:

 


Por uma Educação Debatedora inclusive na Educação Profissional: questão de sobrevivência humana

 

Através da Educação uma sociedade tem sua continuidade, sua sobrevivência, sua renovação, e, em alguns casos, até seu aperfeiçoamento cultural-ético e civilizacional. A questão é simples. Dependendo do tipo de Educação que existe numa sociedade ela apenas sobrevive, se renova com dificuldades. Agora se a tarefa educacional é levada a sério ela tem possibilidades de se perpetuar e se aperfeiçoar.

Infelizmente, a potencialidade que a Educação possui nem sempre é utilizada e nem todas as sociedades colhem seus frutos. E, infelizmente, ao contrário do que alguns imaginam o aperfeiçoamento humano não é inexorável, incontornável e já pré-determinado e para ocorrer necessita de muita luta e Educação.

A história humana registra civilizações como o Egito, Mesopotâmia e Roma, por exemplo, que duraram milênios, e desapareceram; “Quem não cresce, desaparece!”, diz o prosaico ditado empresarial. Outros teóricos dizem: “Civilizações que não evoluem entram em decadência e morrem.” Essa é a escolha que temos que fazer; aperfeiçoa-nos ou desaparecer, única forma de se garantir que amanhã viveremos numa sociedade melhor. O aperfeiçoamento é uma necessidade que sempre deve ser moldada por valores éticos e não a busca predatória fundada na competição desmedida e suicida que alguns defendem.  Enfim, caminhar sempre com sabedoria e fazer o nosso melhor todo os dias. Sempre. Aceitar críticas com serenidade, e verificar o teor de cada uma delas.

Todas as formas de Educação, ou processos educacionais, correspondem aquilo que os estudiosos chamam de formas de socialização. É através destas que uma sociedade prepara novos membros. Falhas ocorrem e podem ser prejudiciais se não colapsais. Veja o caso dos Maias até hoje pouco compreendido, mas que tudo indica teve alguma falha geradora de um colapso social.

Basicamente os estudiosos dividem a socialização, ou Educação, em dois tipos bem conhecidos. A socialização primária, que acontece na família, como unidade de afeto e criação primeira do indivíduo, e a socialização secundária, que ocorre em vários lugares sociais desde o local de trabalho, igrejas, sindicatos até a Escola.

Os seres humanos diferente de outras espécies nascem totalmente dependentes dos adultos que o cercam, a chamada neotenia, e para se desenvolverem e serem capazes de cuidarem de si próprios e depois de outras pessoas no futuro precisam ser educados via socialização primária e secundária.

Alguns estudiosos acrescentam uma socialização terciária, ou fase terciária, para os indivíduos que se dedicam a corrigir e aperfeiçoar a vivência humana, a sociedade, em algum aspecto onde detectam falhas e injustiças. São heróis ou revolucionários, no bom sentido do termo, que abdicam, parcial ou totalmente de suas vidas pessoais ou profissionais, em prol do aperfeiçoamento social, cultural ou ético-civilizacional.

Da neotenia à revolucionários, o caminho é longo e percorrido por pouquíssimos. Seja como for o caminho para todos é a Educação. Hoje sabemos que passados os primeiros anos de vida e recebida uma formação inicial as pessoas podem, quando automotivadas e desejosas, de maneira autônoma buscarem a formação que lhes falta, e que, por razões diversas, a socialização primária e secundária não proporcionou.

Contudo, no decorrer da história humana a socialização secundária do tipo escolar teve seu papel cada vez mais fortalecido, fenômeno ativo até a atualidade. Esse é uma questão central. A Escola como local de encontro de gerações que amplia a formação dos indivíduos e complementa a Educação ofertada e disponibilizada no núcleo familiar. Educação familiar e escolar se complementam. Socialização primária e secundárias se completam e não se confundem.

É na socialização secundária, principalmente na do tipo escolar, que as pessoas entram em contanto, de forma didática e programada, coordenada por adultos, com a diversidade que existe no mundo social. As Escolas são uma espécie de esquina do mundo. Sua função não se confunde com a da família, lhe é complementar. Esse é um equívoco de um projeto do tipo Escola Sem Partido, por exemplo, que apesar de ter algumas pessoas, não todas, bem-intencionadas na sua defesa confunde os objetivos de cada tipo de socialização; a socialização secundária não é uma continuidade da primária. A diversidade cultural, religiosa, moral, política e social que existe neste mundo é um fato, queiramos ou não. Ela não vai pedir licença para existir. Já está aí posta. A socialização secundária é a forma como a conhecemos e aprendamos a lidar com ela.

Não temos que concordar com tudo que existe no mundo, nem devemos. Contudo, se recusar a pensar, refletir sobre a diversidade do mundo é sabotagem perigosa, e certamente, caminho certo rumo ao colapso social. Não é alarde é a realidade já sabida e registrada pela história. Várias sociedades do passado que se recusaram a refletir seriamente, honestamente, abertamente sobre seus problemas pagaram o preço da ruína.

Um exemplo emblemático desta situação foi o episódio vivido pela própria Grécia, berço da democracia, conhecido como Filípicas em que o orador Demóstenes tentou advertir sem sucesso seus compatriotas da iminente invasão macedônica e seus perigos para a democracia. Demóstenes não recebeu a atenção devida, seus argumentos não foram serenamente apreciados e a decadência chegou para os gregos.

Portanto, desde então o Ocidente já sabe que debates sérios, honestos, plurais são valiosos. Decisões maduras, sábias e éticas necessitam da exposição de fatos, das teorias, dos envolvimentos, explicitação de interesses, enfim, a verdade deve ser colocada sobre a mesa. Esse é um exercício que a Educação escolar precisa permitir e proporcionar, ordenadamente, honestamente e pedagogicamente organizado. Sem demagogias, sectarismos e proselitismos. Sabedoria combina com conhecimento da diversidade que existe no mundo, não sua ocultação.

Portanto, o valor do debate na Escola é cada vez maior, tanto para diminuir a desinformação, o preconceito, quanto para fomentar a empatia, a tolerância, o convívio social democrático, a colocação dos ideais coletivos acima dos interesses de grupos, e ajudar a  resolver problemas que prejudicam a edificação de uma sociedade mais justa e solidária.

Afinal, quando a sociedade ruir, os macedônicos invadirem, os gregos tomarem o Egito, ou a civilização Maia colapsar, todos serão atingidos e não apenas de alguns, principalmente no mundo global do século XXI. A ruína costuma generosa e democrática.

Neste sentido o debate é primordial em toda sociedade e na Escola também. E não se trata aqui de coisa nova, recém inventada, que demanda tecnologia caríssima, computadores de última geração. Nada disso. Excesso de tecnologia atrapalha a Educação. Uma das maiores distorções de nossa época é acreditar que a tecnologia, seja ela qual for, tem poderes mágicos para diminuir nossos preconceitos. Educação é um ato humano, mediado ou não por tecnologia.

Portanto, todo debate pedagógico digno deste nome deve ter alguns elementos básicos bem conhecidos de todos os educadores verdadeiros. São eles: pluralidade de opiniões sob o tema em questão, exposição das diversas opiniões e correntes, audição de todos por todos, replicas e treplicas, quando necessário, sintetização das opiniões apresentadas, discutidas e levantadas. Debates pedagógicos, diferentes de conversa de esquina e botequim, necessitam de preparação prévia do condutor do debate, sejam os professores ou mesmo os próprios estudantes monitorados por adultos.

Algumas pessoas acham que apenas debates formais, como júri simulados, precisam de preparação prévia. Isso é uma simplificação. Júri simulado é uma técnica de debate que tem vantagens e desvantagens, gera envolvimento, as vezes gera competição desnecessária e o tema principal fica relegado, mas tem outro grave inconveniente de gerar disputas polarizadas entre duas partes, fazendo parecer, erroneamente, que temas importantes da vida tem apenas duas abordagens. Cuidado a todos! Entre 8 e 80 há inúmeras posições intermediárias que precisam ser evocadas. Na vida real a maior parte dos problemas tem mais de duas abordagens.

 Todos os debates pedagógicos, que não é a mesma coisa que discussão e bate-boca, são espaços de empatia, diversidade e interação. Quando o debate intenciona convencer as pessoas, fazê-las mudar de opinião, honesta ou desonestamente, os sociólogos e cientistas políticos o chama de debate ideológico. Aquele que não é plural, que apresenta apenas uma perspectiva. A diferença é gritante. Debates pedagógicos devem contemplar a pluralidade de opiniões, eles são informativos, esclarecedores, contextualizadores, comentados e interdisciplinares.

Se num ambiente escolar propício para a socialização, sob a administração de regras e mediadores, não conseguimos conversar sobre nossos dilemas e problemas de forma franca e honesta, onde iremos conseguir? Eis a questão... Onde?

Outra questão importante é compreender que a prática de debates pedagógicos deve ocorrer em toda escolarização, com as devidas adaptações temáticas/técnicas, da Educação Infantil ao Pós-Doutorado. Algumas pessoas acham que a Educação Profissional, por exemplo, não precisa desta prática, pois certos cursos aí existentes têm curta duração ou então seriam destinados ao mercado de trabalho. Nada mais equivocado. Primeiro a Educação Profissional se destina a preparação para o Mundo do Trabalho, que é mais amplo do que apenas o Mercado de Trabalho. Segundo que a quantidade de horas não determina a qualidade de nenhum curso. Existem cursos que podem durar uma vida inteira e continuarão sem qualidade, dado a postura de seus professores, das Escolas, deficiências de todo tipo, entre outros motivos.

Se esquecem que o alvo da Educação são as pessoas. Todo debate é uma forma de diálogo, uma conversa estruturada, planejada e preparada, para produzir esclarecimentos e auxiliar as pessoas que sozinhas poderiam levar muito tempo para se informar, ou mesmo não conseguir fazê-lo adequadamente, devido às limitações pessoais, educacionais e preconceitos. A Educação Profissional não é um gênero menor que deve ser alijado de práticas pedagógicas amplamente testadas e sabidamente eficientes. Isso é desumano para com seus estudantes.

A diversidade social e cultural existe no mundo desde a pré-história e é parte constituinte da existência humana. O debate é forma eficiente e eficaz de conhecê-la e compreendê-la. Não é preciso produzir concordâncias, consensos, mas apenas posicionamentos conscientes e maduros. Por isso o valor de debate permanece como forma, como técnica pedagógica, como instrumento de construção da tolerância e de uma vivência social sustentável. Enfim, como uma forma de socialização secundária rumo a uma socialização terciária tão sonhada e cujos frutos desejamos e mais que isso; necessitamos. 

 

Prof. Luciano Marcos Curi – Pós-Doutor em História Social - IFTM – Câmpus Uberaba – Contato: lucianocuri@iftm.edu.br

 


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