* Por Fábio Anauate Nicolao, Médico do Esporte
Reconhecido como o País do Futebol, o Brasil peca por ter, segundo
especialistas da área, um dos piores calendários de campeonatos do
mundo, o que gera um desgaste gigantesco aos jogadores, pois os jogos
acontecem uns após os outros. Os campeonatos são praticamente
emendados e sem intervalo para recuperação física e mental dos atletas –
que passam mais tempo dentro de aviões e hotéis, em trânsito, do que em
casa, descansando da rotina pesada de treinamentos e com as suas
famílias. Isso tudo aliado a outros fatores como
a exigência por vitórias e alto desempenho.
Agora imaginem toda essa pressão em um cenário de pandemia. Todos
podemos ter acesso a artigos e matérias na imprensa que mostram que a
saúde mental de muitos brasileiros está comprometida em razão de tudo o
que estamos vivendo. No mundo do futebol não é diferente.
Os jogadores também estão impactados e querem proteger as suas
famílias, mas, enquanto isso, seus dirigentes brigam pela volta das
torcidas aos estádios.
Em janeiro, o Corinthians foi o primeiro time do ano a anunciar que dez
de seus jogadores testaram positivo para Covid-19. Na última rodada do
Campeonato Brasileiro, o Palmeiras ficou sem 18 jogadores – pelo mesmo
motivo, e o Atlético Mineiro, sem dez. Vasco,
Fluminense, Coritiba, todos com o time comprometido também. Um pouco
antes, em dezembro, o futebol nacional perdeu nada menos que quatro
dirigentes de clubes, entre eles Paulo Magro, presidente do Chapecoense.
Esta é a realidade dos jogadores profissionais
do Brasil: pandemia, saúde física, mental e rendimento físico
comprometidos, patrocinadores querendo reverter em lucro seus
investimentos. E o Brasil sem vacina suficiente para atender a toda a
população.
Estudos comprovam que para que o futebol profissional funcione
efetivamente, o atleta depende do equilíbrio de quatro importantes
capacidades:
a física, a técnica, a tática e a
emocional. Capacidades que são interdependentes e muitas vezes ainda
são tratadas de forma independentes, principalmente quando falamos da
questão emocional.
A visão moderna de jogo diz que nunca se deve separar o físico do
técnico, do tático e do emocional. Isso é psicologia do esporte, é o que
forma o indivíduo atleta, e o indivíduo é aquele que joga o jogo.
Quando falamos especificamente em atletas de alto rendimento,
entre os quais a margem entre performance e lesão é muito tênue, é
fundamental um suporte multidisciplinar de profissionais de saúde
habilitados como médico, psicólogo, nutricionista e preparador físico.
Além de aumentar as chances de lesão, é consenso na
literatura que um estresse elevado altera o rendimento do esportista
porque também gera alterações neurofisiológicas e metabólicas, que
acabam impactando no sistema endocrinológico. Infelizmente, o que vemos
hoje em dia é que muitos clubes e confederações
menosprezam esses cuidados fundamentais no que diz respeito à saúde
global do jogador de futebol.
Recentemente, o técnico do Barcelona, Ronald Koeman, afirmou que
“estamos matando nossos jogadores”. Isso é uma verdade indiscutível, que
transcende o simples rendimento em qualquer lugar do mundo, pois
independentemente da nacionalidade, jogadores de futebol
são seres humanos, não máquinas. Aumentos abusivos na carga de
treinamento e a alta frequência de jogos, negligenciando-se a
recuperação com os intervalos de descanso obrigatórios, podem acarretar
inúmeras alterações físicas e mentais como a diminuição
do desempenho atlético, lesões contínuas, principalmente musculares,
fadiga, além de transtornos comportamentais, distúrbios do sono,
alterações endócrinas, anorexia e alterações no sistema imunológico que
geram maior suscetibilidade a doenças infecciosas.
Outros distúrbios de longo prazo incluem alteração da concentração,
aumento da ansiedade, instabilidade emocional e enxaqueca. A
manifestação mais temível entre os atletas com síndrome do excesso de
treinamento é a rabdomiólise, doença causada por lesões musculares
graves que evoluem com insuficiência renal e podem ser fatais em alguns
casos.
Já passou da hora de se investir na saúde mental dos jogadores, pois sem
ela o físico não aguenta sozinho muito tempo. Nossa atual realidade, em
que estrelas simplesmente perdem o brilho, novos talentos têm
dificuldade de ganhar destaque no esporte e potenciais
campeões se perdem pelo caminho por não conseguirem lidar com a pressão
são resultado de falta de apreço à saúde mental dos atletas. Se
quisermos voltar a ser quem fomos há algumas décadas, uma referência sem
paralelos no futebol mundial, isso precisa mudar.

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